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O que Nietzsche acha do político treteiro?

Se Nietzsche estivesse vivo e abrisse hoje o instagram, dificilmente ficaria chocado. Talvez diria: “eu avisei”. A política barulhenta, escandalosa e permanentemente em conflito não é um fenômeno novo; só ganhou um @, câmera e algoritmo.

O que hoje chamamos de “político treteiro”, aquele que precisa de uma polêmica por dia para continuar relevante, já era, para Nietzsche, um tipo humano conhecido. Não exatamente um vilão, nem um gênio percebe-se, mas alguém movido por algo mais profundo do que convicção: ressentimento.

Nietzsche nunca analisou política apenas como ideologia ou disputa de poder institucional. Ele olhava para a política como um reflexo da alma. E, nesse sentido, o barulho excessivo costuma dizer mais sobre quem fala do que sobre o que está sendo dito.


Quando a política nasce da reação

Ressentimento, para Nietzsche, não é simples raiva. É algo mais silencioso e persistente. Surge quando alguém não consegue afirmar algo próprio e passa a viver em função do que combate. Não cria valores novos; reage aos valores existentes.

O político treteiro raramente apresenta um projeto que se sustenta sozinho. Ele precisa de um inimigo constante. Se o inimigo some, ele inventa outro. Se não inventa, desaparece.

Perceba o padrão: o discurso gira menos em torno de “o que vamos construir” e mais em torno de “quem vamos derrotar”. A política vira uma sucessão de confrontos morais, quase sempre simplificados. Bem contra mal. Nós contra eles. Torcida formada, camisa vestida.

Nietzsche diria que isso não é força. É dependência. Quem precisa brigar o tempo todo não está dominando o jogo; está preso a ele.


A treta como forma de existir

Exercer o mandato é lento. Exige negociação, concessão, frustração. Exige aceitar limites. Já a polêmica é rápida, emocional e recompensadora. Em poucas horas, ela entrega engajamento, visibilidade e sensação de protagonismo.

Talvez por isso tantos políticos troquem a política real pela política performática. Não porque acreditam genuinamente em tudo o que dizem, mas porque aprenderam que o conflito rende mais do que a solução.

No Brasil, isso não é novidade. Já vimos figuras que cresceram no discurso inflamado, na denúncia permanente, na retórica moralista. Enquanto estavam na oposição, funcionou. Quando precisaram administrar, o discurso perdeu fôlego. A treta não paga conta, não fecha orçamento, não constrói política pública.

Nietzsche chamaria isso de compensação: quando não se exerce poder criador, exerce-se poder simbólico. Grita-se mais alto para esconder a falta de substância.


Moral em excesso costuma esconder vazio

Outro ponto importante: Nietzsche desconfiava profundamente de discursos morais exagerados. Quando tudo vira uma questão de virtude contra corrupção, de pureza contra decadência, geralmente o pensamento já empobreceu.

A moralização extrema é confortável. Ela dispensa dados, contexto e complexidade. Basta escolher um lado e apontar o dedo. O político treteiro faz isso com habilidade. Ele não quer convencer; quer mobilizar. Não quer diálogo; quer adesão emocional.

É aí que surgem soluções fantasiosas, promessas absolutas, rupturas milagrosas. Não importa se são viáveis. Importa se funcionam como narrativa. Nietzsche enxergaria isso como um sintoma clássico: quando falta potência criadora, sobra indignação.


O ressentimento mobiliza, mas não sustenta

O ressentimento é eficiente no curto prazo. Ele une, inflama, dá sensação de pertencimento. Mas não sustenta projeto nenhum. Ele vive do conflito contínuo. Precisa sempre de um novo escândalo, uma nova crise, um novo inimigo.

Por isso tantos políticos parecem viciados em aparecer diariamente. O silêncio os enfraquece. A normalidade os apaga. Trabalhar bem, paradoxalmente, pode ser péssimo para quem depende do caos para existir.

Nietzsche diria algo incômodo: quem vive da treta não está tentando transformar a realidade, mas permanecer relevante dentro dela.


A torcida não surge sozinha

Costuma-se culpar o público, as redes sociais, o algoritmo. Tudo isso pesa, claro. Mas Nietzsche inverteria a lógica. A torcida não nasce do nada. Ela é estimulada. Alimentada. Treinada.

O político treteiro não quer cidadãos críticos. Quer seguidores fiéis. Pessoas que reajam por impulso, não por reflexão. A divisão é útil porque simplifica. E simplificar é fundamental quando se tem pouco a oferecer além do confronto.


Nietzsche não defenderia o silêncio covarde

Importante dizer: Nietzsche não era defensor do conformismo. Ele não condenava o conflito em si. O que ele criticava era a incapacidade de criar algo novo. A política, para ele, deveria ser afirmação, não apenas negação.

O problema não é enfrentar. É viver apenas para enfrentar.

Quando a política vira um eterno ringue, ela deixa de ser ação e vira sintoma. Barulho sem potência. Movimento sem direção.


Menos treta, mais criação

Se Nietzsche analisasse o político treteiro, provavelmente não o atacaria. Faria algo mais desconcertante: mostraria que, por trás da gritaria, há pouca força criadora. Que a indignação permanente costuma ser um disfarce elegante para a impotência.

Criar exige mais coragem do que atacar. Construir exige mais caráter do que provocar. E talvez seja por isso que tantos prefiram o barulho.

O silêncio de quem faz, no fim das contas, costuma incomodar muito mais do que o grito de quem apenas reage.

Para quem quiser ir além do barulho

Este texto não pretende encerrar o assunto, nem oferecer respostas definitivas. A filosofia, afinal, serve menos para dar conclusões prontas e mais para ensinar a desconfiar do óbvio, especialmente quando ele vem embalado em gritos, certezas morais e promessas fáceis.

Para quem quiser aprofundar essa reflexão, sem precisar de formação acadêmica ou linguagem excessivamente técnica, algumas leituras ajudam muito a entender por que a política barulhenta funciona tão bem e, ao mesmo tempo, produz tão pouco.


Leituras filosóficas fundamentais (acessíveis ao leitor comum)

  • Genealogia da Moral

     Aqui está a base de tudo o que foi discutido. Nietzsche explica como valores morais nascem do ressentimento e da reação, não da criação. Não é um livro fácil, mas é profundamente revelador, especialmente se lido sem pressa.

  • Crepúsculo dos Ídolos

     Uma ótima porta de entrada. Curto, provocativo e direto. Nietzsche desmonta certezas morais e mostra como discursos “cheios de virtude” muitas vezes escondem fraqueza intelectual.

Para entender o caso brasileiro sem paixões

  • O Ódio como Política

     Um olhar filosófico e direto sobre como o ressentimento se tornou motor político no Brasil contemporâneo, à esquerda e à direita.

  • A Elite do Atraso

     Ajuda a compreender como discursos morais e polarizações são instrumentalizados historicamente no país, criando inimigos simbólicos permanentes.


Um convite final

Nenhum desses livros pede concordância cega. Pelo contrário. Todas convidam o leitor a fazer algo cada vez mais raro na política atual: pensar antes de reagir.

Talvez esse seja o primeiro passo para sair da lógica da torcida e começar a enxergar a política não como um ringue permanente, mas como aquilo que ela deveria ser: um espaço de criação, responsabilidade e realidade.



Gabriel Lopes é bacharel em Ciência Política, pós-graduado em Comunicação Política e atua como profissional de marketing político.

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